Friday, June 13, 2008

Hoje fico sem a coluna do Eduardo Almeida Reis, começo o dia sem as palavras quadradas que gosto de jogar de um lado ao outro da boca com café antes de engolir, sempre incerta se vou mesmo digerir. Aqui no Morro da Coruja, Grande Colorado tem dessas, eventualmente fico sem jornais impressos. A Folha não chega às bancas da periferia e os jornais locais são distribuídos depois das oito! Jornal não é para ser lido no café da manhã, enquanto a gente disfarça a falta de assunto com a família? Aqui, no morro invadido pela classe média, mezzo rural mezzo urbano, estou aprendendo a não ter este vício da leitura dos diários pela manhã. Leio revistas, mas só se não estiver compartilhando a mesa com um bom papo.
Sei que daqui a pouco vou acabar me esticando até o shopping na beira da estrada para me render aos jornais, abastecer o meu fusarKa, sacar do caixa eletrônico todo o meu descontrole, adquirir créditos com a empresa de telefonia celular e me enganar numa xícara de café expresso. Como não é domingo, fico sem a mesa de café colonial ao preço sideral. Gosto de me sentar na padaria e ler os jornais inteirinhos, enquanto como moderadamente um doce, umas frutas, um ao com manteiga, um com geléia, um café um suco um chá, um de cada para não passar apuro depois na balança.
Minha mesa, em casa, é simples, sem os queijos e delicatessen da mesa do Almeida - minha posição na sociedade é bem mais humilde. Mas tenho meus pequenos luxos: frutas frescas do quintal, por exemplo. Para trabalhadora, sem herança de família tradicional paulista ou outra qualquer, ter um quintal com frutas o ano todo é uma super vitória contra o capitalismo, não? Só o fato de escolher viver no meio do mato, já é um ato subversivo e tanto, não? Aqui tenho outra relação com o consumo. Também posso buscar um controle maior dos meus recursos. Na “cidade” fico mais limitada no controle do meu sustento. Supermercado não é quintal de casa, né?
Sem ler o Correio, tenho um pouco mais de tempo para “processar” as notícias do CEAN. O GDF é mesmo muito tacanho! E eu que achei q fosse só uma questão de estilo de governo Roriz, não! Agora vejo que é a estrutura da Secretaria. Nela é que se encontra o favorecimento a governos cegos aos fundamentos pedagógicos da escola, que visam apenas ao ajuste administrativo capaz de fornecer os números que satisfazem aos bancos financiadores dos seus programas. De quebra, ainda desmantelam o parco poder de resistência da comunidade escolar contra a má gestão, a falta de transparência do controle de orçamento e tal. A mídia de mãos dadas com os ocupantes dos cargos de poder, se ocupando de publicar o que o oficial dita ao redator. e eu ainda compro esses jornais!!! (será q o Almeidinha já se sujeitou assim? :-O, ah, não! Não quero crer! O que ele tem de mais gostoso é justamente o quê de rebelde!)
Por que estou eu pensando no CEAN a esta hora da manhã? Puro exercício de pensamento de cidadã! (agora explica pq estou pensando no Almeida, vai!) Não fui aluna lá, nem profa, sempre passei na frente admirada e com vontade de entrar. Não tive filhos lá, mas gostaria de ter e de ter tido. A minha trajetória de pedagoga me faz entender que a escola não é assunto só de quem a tem, mas, talvez principalmente, daqueles que não a têm. Não ter a escola ou não tê-la suficientemente equipada para manter bem aqueles que já estão nela é assunto de pedagoga. A escola que a gente não tem é assunto de todo mundo, penso eu. Por isso penso na situação que aquela escola passa atualmente, com a remoção dos professores de laboratório, após já terem sido desmontadas as equipes de educação em Artes. Não li ainda o Projeto Político Pedagógico do GDF, ando desengonçada para o trabalho, mas tenho visto encaminhamentos semelhantes aos dos governos do PSDB, para o ensino médio. A escola pública do PSDB é aquela mínima, que tenha indicadores de máximo ofertado, que só não é melhor aproveitado pq “o povão é pobre de espírito”, “não sabe aproveitar as oportunidades da sociedade e do mercado”, os aposentados são uns vagabundos, os professores são aqueles que não sabem fazer nada, se soubessem fariam outra coisa, como disse FHC . Pouca escola, escola parca. E eu aqui, me sentindo pequena para consertar os erros dos outros.
Um gavião carijó que circula sobre meu quintal talvez azarando um mamão, talvez um filhote aninhado na oliveira, no céu ‘zulin de junho, em cujas bordas já começam a brotar flocos de nuvens, chama minha atenção para o dia e a necessidade de voltar àquele meu projeto fantástico: sobreviver a pelo menos mais este dia. Sigo sem Almeida, porém, me dando ao luxo de devorar um cacho de bananinhas doces como eu mereço.

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