Wednesday, May 18, 2005

Pergunte-se

As sociedades nas suas diferentes épocas sempre se reservaram um certo repertório de perguntas aceitas. Algumas coisas não se perguntam nunca (qual sua idade, dona?), outras repetimos com freqüência (você vem sempre aqui, gatinha?). Uma pergunta mal colocada arrisca demonstrar a falta de educação de quem pergunta. Por outro lado, uma pergunta bem feita denota a força e a cultura de quem a faz. O tipo de pergunta, muitas vezes nos faz pensar que quem pergunta já sabe a resposta (você tem outra?). Outras apenas demonstram a vontade de não saber (você tem outra?). Quem nos ensina a fazer perguntas? As perguntas andam esquecidas por aí...Paulo Freire, um filósofo que granjeou respeito e autoridade no mundo inteiro pelo seu pensamento e atuação na educação, e por isso é sempre lembrado, já denunciava nos anos 70 que a nossa escola é uma escola de respostas, quando deveria ser de perguntas, "a única capaz de estimular a capacidade humana de assombrar-se, de responder ao seu assombro e resolver seus verdadeiros problemas essenciais, existenciais". Então, por que a escola não ensina a perguntar? A natureza desafiadora da pergunta mexe com a ordem estabelecida, provoca a autoridade, por isso muitos professores manifestam insegurança quanto à própria capacidade de dar respostas à todas as perguntas de seus alunos. Esta insegurança não é exclusividade dos professores, se reflete em outras esferas da sociedade. Mas, quem se sente capaz, por exemplo, de responder como acabar com a fome, a miséria, a corrupção, a guerra, as injustiças, a má distribuição de renda e terra, a Aids, o câncer? Não são estas as coisas que realmente nos importam saber? E, como saber? O exercício de formular perguntas é extremamante importante para os professores, uma vez que todo conhecimento começa com uma pergunta, mas também deve ser uma tarefa diária de todos nós. Porém, não de perguntas idefinidas, estas são fracas, qualquer um pode respondê-las. Algumas, ao contrário, nós remetemos aos deuses e aos oráculos de tão fortes. Tanto mais forte a pergunta, mais difícil de respondê-la. (será que vamos ganhar o campeonato?). A pergunta nos leva a saber mais. Às vezes precisamos de estratégias de força para saber mais, veja a polícia como faz. Afinal, nem todos querem compartilhar saber e conhecimento. O exercício de perguntar poderia nos levar a uma distribuição de poder mais democrática. O segredo da resposta dá força e poder a quem a sabe. Queremos saber os segredos da Microsoft para produzirmos nossos softwares livres, não é? No Brasil, onde não há financiamento suficiente, onde os salários dos professores são tão baixos, onde as escolas públicas são sempre sucateadas, onde os materiais didáticos são tão mal produzidos e distribuídos, a pergunta que não quer calar é: a educação é mesmo um valor?